Tomei os primeiros socos aos quatro, cinco anos, e aos sete, já tinha sido surrado por garotos com o dobro da minha idade inúmeras vezes.
Quando tive chance, perguntei ao meu pai sobre a injustiça. Ele disse para eu me acostumar, andar entre os babacas da turma, ler e estudar, ser alguém na vida, prestar atenção na aula e não ligar para o que eles diziam.
Mas eles vinham para cima. Por qualquer motivo e sem motivo. E quando pareciam ter, não tinham. Brigavam pela posse da bola, pelo respeito do grupo, pelas garotas e acertos de contas na cantina.
Quando se vê uma briga iniciada não se sabe quem começou. Quem está em uma, não quer mais saber, só pensa em uma coisa: não posso apanhar.
Nós nos batíamos até chorar, até perceber o quanto estávamos errados, até ter vergonha de nós mesmo e não ter mais como voltar atrás. Suados e exaustos.
Lembro também que nos apaixonávamos. Era raro, ingênuo e verdadeiro.
Aos amigos a gente conta estas coisas.
Eu sou aquele garoto. Quinze anos depois, fui pego batendo forte em um inocente.
Quando se atropela não adianta pedir desculpas, corre-se para o hospital. Quando é tarde demais pede-se desculpas e vai embora. Ora por noites de paz.
Volto para a sala de aula de onde nunca deveria ter saido. Sentado na primeira carteira, calado, sem saber o destino da inocente.
_________ um filme: Feliz Natal,
um soco: no ego,
uma ritalina: só se for para pedir perdão ________
-
Réu Confesso
Cego, não ouvi nada e atirei.
Atirei e acertei em quem estava mais perto, sem perceber que vinha desarmar.
Ela me olhou dentro dos olhos e disse coisas sem sentido.
Cego, não ouvi nada e atirei.
Atirei e acertei em quem estava mais perto, sem perceber que vinha desarmar.
Ela me olhou dentro dos olhos e disse coisas sem sentido.
Disse o que não conseguia ouvir.
Eu não ouvia nem meus pensamentos.
“Este gatilho quem armou fui eu” ecova entre os ouvidos.
Não existem cumplices.
Não há com quem dividir este peso.
Não existem argumentos que apaguem a culpa.
Tarde demais para enterrar as balas em lugar seguro.
Eu não ouvia nem meus pensamentos.
“Este gatilho quem armou fui eu” ecova entre os ouvidos.
Não existem cumplices.
Não há com quem dividir este peso.
Não existem argumentos que apaguem a culpa.
Tarde demais para enterrar as balas em lugar seguro.
A culpa é minha!
Só minha.
Só minha.
Preso, penso em Liberdade.
Liberdade!
Não em condicional.
Não há condicional.
O que faz o réu com o perdão da vítima?
O que faz o réu com o seu respeito?
